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Fiquei a dever um jantar, queijo de Azeitão e vinho de Palmela aos vassouras

Carlos Costa


A prova teve início no Largo Barão da Batalha, à uma da manhã, e prolongou-se por quase vinte e três horas, numa volta extensa pelo concelho de Abrantes até ao Estádio Municipal.

Alguns pontos do percurso exigiram atenção redobrada e muita cautela, não recomendaria a inscrição e a participação de estenofóbicos ou catapedafóbicos.

O tempo chuvoso agravou a estabilidade de alguns pisos e enlameou por completo o percurso entre os quilómetros 80 e 90.

O troço na margem do lago da Barragem de Castelo de Bode foi particularmente arriscado devido ao solo húmido e xistoso, às pedras soltas, ao trilho estreito e inclinado. Claro que para salvaguarda dos atletas, os bombeiros estavam presentes, mas o perigo de queda seria real se algum pé ou mão derrapasse ou se fosse agarrada ou pisada alguma pedra solta.

Entre os quilómetros 70 e 90, além de duas descidas de corda, houve trilhos estreitos à margem de um ribeiro, rochosos e húmidos, com pelo menos quatro intervalos que exigiriam aos atletas um salto com minúcia suficiente de forma a evitarem a queda. Durante essa parte do percurso, fiquei grato a um atleta de Setúbal que me mostrou como os podia pular sem percalço algum.

É evidente que a prova não se ficou por trilhos húmidos e rochosos ou por momentos de dúvida e incerteza, ela foi uma oportunidade para reencontrar velhos amigos participantes de outras, foi uma estreia minha num percurso com três dígitos de distância.

Durante a prova perdi-me cinco vezes, deixei de ver as fitas e os quadrados fluorescentes, tive de recuar para perceber porque os deixei de ver. Dei três cabeçadas, a primeira num ramo de eucalipto, a segunda no arco de um aqueduto e a terceira num túnel com menos altura que eu, quando me agachei e o telemóvel recebe mensagem. Derrapei e caí de rabo numa pequena descida enlameada e coberta por uma palete de madeira. Piquei o polegar esquerdo num pauzinho abandonado num molho de musgo, quando me agarrava à parede rochosa de um percurso estreito. Apreciei a beleza das cascatas, dos açudes e do jardim de um solar do século XIX, presentes no troço entre os quilómetros 40 e 50. Admirei as ruínas de duas azenhas e de algumas casas em pedra, construídas entre os quilómetros 70 e 90, à beira de um ribeiro. Entrei num museu etnográfico e repousei um pouco as pernas antes de prosseguir para os últimos quilómetros até à meta.

A minha classificação ficou muito aquém das expetativas, a lama entre os quilómetros 80 e 90 e o deficitário reforço muscular não me permitiram ter outro desempenho. Fui vassourado aproximadamente entre o quilómetro 87 e o 96. Ao quilómetro 97 senti-me melhor e acelerei até Abrantes, até ao Estádio Municipal. Fiquei a dever um jantar, queijo de Azeitão e vinho de Palmela aos vassouras.

No fim, quando me descalcei, tinha os pés irreconhecíveis. A pele engilhada e pálida, bolhas rebentadas nos dedos e nas solas. Um banho quente, uma noite de sono e um creme hidratante foram o bastante para os aliviar. #trailabrantes100

(retirado do facebook - 21/10/2019)

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